19/07/2014

A filosofia de Balu e o enxoval do bebê

Quando eu era criança, na nossa casa não tínhamos televisão. Por opção dos meus pais mesmo. Então, nossa diversão, minha e de meus irmãos, era ouvir músicas e histórias no toca fitas que ficava na sala, ao mesmo tempo em que brincávamos e nos divertíamos com nossos brinquedos e uns com os outros. Nós tínhamos uma coleção de fitas k7 destinadas a cegos, em que as histórias bíblicas foram narradas de forma vívida e cativante.  A narração era feita por diversos atores e continha uma paisagem sonora bem diversificada, o que dava bastante vida ao texto. Até hoje me lembro da suave voz da nuvenzinha falando para o povo de Israel, quando de sua travessia pelo deserto: “não tenham medo, eu cuido de vocês”. E também das mulheres cantando o sucesso de Davi, para ódio do então rei Saul: “Saul derrotou mil inimigos, mas Davi, dez miiiiillll”. Os diálogos entre os amigos Davi e Jonatas, o episódio da lança e da moringa, enfim, várias histórias que cultivaram minha imaginação e meu coração. Dentre essas fitas, tínhamos também algumas com histórias não bíblicas, mas igualmente bem narradas e ricas em detalhes sonoros, tipo Aladim e a Lâmpada Mágica e Mogli, o Menino Lobo. E deste último é que aprendi a filosofia de Balu.

A filosofia de Balu, o urso amigo do Mogli, é simples. Até demais. Certa feita, ele canta assim para o menino: “Eu uso o necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais. Eu uso o necessário, somente o necessário, por isso é que essa vida eu vivo em paz!”. Rico, não?! Quando criança, obviamente não compreendia a veracidade e o princípio por trás desse algum, era embalada mais pelo ritmo dançante do que pelo verbo, mas, agora, ele faz bastante sentido e, de certo modo, inspirou o meu não desatino em relação aos preparativos para a chegada da Rebeca. Somente o necessário. E foi assim que, aos poucos, fomos montando o enxoval dela. Pouco é necessário. Temos que aprender a fazer boas escolhas e a escolher o melhor. O melhor, no nosso caso, não se ateve a marcas, lojas xywz, modas e preço$$$. O extraordinário é demais. A Beca herdou bastante coisas, roupinhas, as mesmas que os irmãos dela vão herdar também, ganhou outras várias, e investimos nós mesmos também em alguns artigos. Por exemplo, não compramos carrinho, item este indispensável, de acordo com as listas de enxoval disponíveis na internet e nas lojas de artigos infantis. Não compramos até ele ser necessário. Demorou 2 meses pra isso. Nos dois primeiros meses de vida dela, o bebê conforto doado por uma amiga serviu, e muito bem. Não havia necessidade de um carrinho. Não para nós. (E pra passear com a bebezica, Laura? Sling, filha!). A mesma lógica para o cadeirão de alimentação (e esse demorou 6 meses pra ser necessário. Necessário naquelas, né, porque a bisavó dela que tem nome de flor, alimentou os quatro filhos tudo no colo. Old times!) e ainda conseguimos emprestado o da vizinha querida, enquanto o bebê dela não usava. Brinquedos, de uma forma geral: ganhou tudo o que tem até hoje. Não to de brincation uifi u, não, minha amiga! E os poucos que ela tem já renderam meses de entretenimento, desenvolvimento, e diversão. Falo poucos, se comparado com as estantes de algumas outras crianças que eu conheço, porque já teve gente que ao contemplar o cantinho onde estão dispostos os brinquedinhos dela exclamou com admiração e entusiasmo: “Nossa! Quanto brinquedo, tia!”.

A mesma lógica “baluseana” da necessidade afeta o que não mais o é. Não usa mais? Não precisa mais? Não cabe mais? Doa, guarda, empresta, se desfaz. Inevitável uma marcha mais lenta nessa via do percurso. Queremos mais filhos, e as coisas que já temos poderão vir a ser um dia reutilizadas por nós mesmos. Mas essa perspectiva não impera. Hoje pode ter alguém necessitando. E se estiver ao nosso alcance suprir essa necessidade, que assim seja.


Balu atribuía a paz dele ao estilo de vida simples que levava. Além de paz, contentar-se e ser feliz com pouco e com o necessário aplaca a ansiedade. E esta, em tempos de gestar, sonhar e parir, bem que poderia trocar uma ideia com Balu.