Quando eu era criança, na
nossa casa não tínhamos televisão. Por opção dos meus pais mesmo. Então, nossa
diversão, minha e de meus irmãos, era ouvir músicas e histórias no toca fitas
que ficava na sala, ao mesmo tempo em que brincávamos e nos divertíamos com
nossos brinquedos e uns com os outros. Nós tínhamos uma coleção de fitas k7
destinadas a cegos, em que as histórias bíblicas foram narradas de forma vívida
e cativante. A narração era feita por diversos atores e continha uma
paisagem sonora bem diversificada, o que dava bastante vida ao texto. Até hoje
me lembro da suave voz da nuvenzinha falando para o povo de Israel, quando de
sua travessia pelo deserto: “não tenham medo, eu cuido de vocês”. E também das
mulheres cantando o sucesso de Davi, para ódio do então rei Saul: “Saul
derrotou mil inimigos, mas Davi, dez miiiiillll”. Os diálogos entre os amigos
Davi e Jonatas, o episódio da lança e da moringa, enfim, várias histórias que
cultivaram minha imaginação e meu coração. Dentre essas fitas, tínhamos também
algumas com histórias não bíblicas, mas igualmente bem narradas e ricas em
detalhes sonoros, tipo Aladim e a Lâmpada Mágica e Mogli, o Menino Lobo. E
deste último é que aprendi a filosofia de Balu.
A filosofia de Balu, o urso
amigo do Mogli, é simples. Até demais. Certa feita, ele canta assim para o
menino: “Eu uso o necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais.
Eu uso o necessário, somente o necessário, por isso é que essa vida eu vivo em
paz!”. Rico, não?! Quando criança, obviamente não compreendia a veracidade e o
princípio por trás desse algum, era embalada mais pelo ritmo dançante do que
pelo verbo, mas, agora, ele faz bastante sentido e, de certo modo, inspirou o
meu não desatino em relação aos preparativos para a chegada da Rebeca. Somente
o necessário. E foi assim que, aos poucos, fomos montando o enxoval dela. Pouco
é necessário. Temos que aprender a fazer boas escolhas e a escolher o melhor. O
melhor, no nosso caso, não se ateve a marcas, lojas xywz, modas e preço$$$. O
extraordinário é demais. A Beca herdou bastante coisas, roupinhas, as mesmas
que os irmãos dela vão herdar também, ganhou outras várias, e investimos nós
mesmos também em alguns artigos. Por exemplo, não compramos carrinho, item este
indispensável, de acordo com as listas de enxoval disponíveis na internet e nas
lojas de artigos infantis. Não compramos até ele ser necessário. Demorou 2 meses pra
isso. Nos dois primeiros meses de vida dela, o bebê conforto doado por uma
amiga serviu, e muito bem. Não havia necessidade de um carrinho. Não para nós.
(E pra passear com a bebezica, Laura? Sling, filha!). A mesma lógica para o
cadeirão de alimentação (e esse demorou 6 meses pra ser necessário. Necessário naquelas, né, porque a bisavó dela que
tem nome de flor, alimentou os quatro filhos tudo no colo. Old times!) e ainda
conseguimos emprestado o da vizinha querida, enquanto o bebê dela não usava.
Brinquedos, de uma forma geral: ganhou tudo o que tem até hoje. Não to de
brincation uifi u, não, minha amiga! E os poucos que ela tem já renderam meses
de entretenimento, desenvolvimento, e diversão. Falo poucos, se comparado com
as estantes de algumas outras crianças que eu conheço, porque já teve gente que
ao contemplar o cantinho onde estão dispostos os brinquedinhos dela exclamou
com admiração e entusiasmo: “Nossa! Quanto brinquedo, tia!”.
A mesma lógica “baluseana” da
necessidade afeta o que não mais o é. Não usa mais? Não precisa mais? Não cabe
mais? Doa, guarda, empresta, se desfaz. Inevitável uma marcha mais lenta nessa
via do percurso. Queremos mais filhos, e as coisas que já temos poderão vir a
ser um dia reutilizadas por nós mesmos. Mas essa perspectiva não impera. Hoje
pode ter alguém necessitando. E se estiver ao nosso alcance suprir essa
necessidade, que assim seja.
Balu atribuía a paz dele ao
estilo de vida simples que levava. Além de paz, contentar-se e ser feliz com
pouco e com o necessário aplaca a ansiedade. E esta, em tempos de gestar,
sonhar e parir, bem que poderia trocar uma ideia com Balu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário